Um mito persistente diz que a Assembleia Legislativa do Estado de Indiana, nos EUA (alguns dizem que foi na de Iowa, outros na de Idaho), aprovou certa vez uma lei, declarando o valor correto do π - bem, as pessoas às vezes dizem 3, às vezes 3 e 1/6...
De qualquer forma, o mito é falso.
No entanto, quase ocorreu algo desconfortavelmente próximo. Não se sabe ao certo qual era o valor em questão: o documento parece implicar ao menos nove valores diferentes, todos eles errados. A lei foi aprovada: foi "adiada indefinidamente", e sua situação aparentemente não se alterou. A lei em questão era a de número 246 na Assembleia Legislativa de Indiana no ano de 1897; ela dava ao Estado o poder de utilizar exclusivamente uma "nova verdade matemática", com custo zero. Esta lei foi aprovada - não havia nenhum motivo para que não fosse, pois não incumbia o Estado de nenhuma obrigação. Na verdade, a votação foi unânime.
A nova verdade, porém, era uma tentativa um tanto complicada, além de incorreta, de encontrar a "quadratura do círculo" - ou seja, de construir π geometricamente. Um jornal de Indianápolis publicou um artigo que ressaltavaser impossível encontrar a quadratura do círculo. Então a lei chegou ao Senado para ser confirmada. E os políticos - ainda que não soubesse nada sobre π - já sentiam que haveria dificuldades (os esforços do professor C.A. Waldo, da Academia de Ciências de Indiana, um matemático que calhou de visitar a Assembleia enquanto a lei era discutida, provavelmente ajudou a concentrar suas mentes). Eles não debateram a validade da matemática em questão, apenas decidiram que não se tratava de uma questão sobre a qual poderiam legislar. E assim, postergaram a votação... e enquanto escrevo, 111 anos depois, a situação continua a mesma.
A geometria envolvida foi quase certamente obra de J. Goodwin, um médico que brincava com matemática. Goodwin viveu em um vilarejo chamado Solitude, no Condado Posey, Indiana, e muitas vezes alegou ter trissectado o ângulo e dobrado o cubo - dois outros feitos famosos e igualmente impossíveis, além de ter encontrado a quadratura do círculo. De qualquer forma, a Assembleia Legislativa não tentou conscientemente dar um valor incorreto a π por força de lei - embora haja um argumento convincente segundo o qual, se a lei tivesse sido aprovada, a abordagem de Goodwin teria sido "promulgada", o que implicaria sua precisão na lei, ainda que não na matemática. É uma questão jurídica delicada.